Minha orelha está crescendo, crescendo de verdade. Ficando maior, maior a cada dia. Se ainda fossem as duas, mas não, só a direita. É só a direita que cresce, a esquerda está boa. Boa é maneira de dizer, pois está ficando cada vez menor. Comparativamente, eu digo. A pessoa olha a esquerda antes e depois de ver a outra grande pensa que é ela que está encolhendo.
Eu estava em casa quando me dei conta. Dava para sentir, estava dolorido. Não eu, a orelha, orelha direita. Estava meio dolorido, na ponta, como se tivessem picado. Picado não, mordido ou dado uma dentada.
– Deus me livre!
– É verdade – repetiu. – Nessa região tem muitos morcegos!
– Claro que não! – me defendi. – Acha que eu não perceberia se um morcego viesse me picar?
– Quer dizer, morder.
– Certo, morder. Eu teria percebido se um morcego tivesse me mordido!
– Percebido? Não, claro que não. Esses bichos são assim, muito sorrateiros...
– Sorrateiros, é? Conta outra... – desconversei.
É claro que não poderia ser isso. Francisco Beltrão não é uma megalópole, mas também não era uma floresta, com mata e animais selvagens. Nunca tinha ouvido falar em morcegos por aqui. Além do mais, o problema não era mordida, mas o crescimento da orelha. Uma mordida, no máximo, diminuiria o tamanho dela.
– Crescendo? – analisou o cara da farmácia. – Deve ser alguma reação de picada.
– Picada?
– É, picada. Deve ter sido uma picada de algum bicho ou alguma coisa.
– Alguma “coisa”, tipo o quê?
– Tipo “coisa”... – desconversou. – Essa pomada é boa pra isso.
– Você acha que a coisa...
– Obrigado e tenha um bom dia – finalizou entregando o pacote.
Saí de lá intrigado. Alguma coisa tinha me picado, alguma coisa que não sabia o que era e que devia por aí, à solta. Coisa que pica deve ser uma abelha, uma vespa ou um marimbondo. Morcego não, morcego não pica, só morde. Será que não fui mordido?
Chegando em casa ansioso, rasguei o pacote da farmácia e peguei a pequena pomada. Pequena e cara. Não duraria muito, mas nem pensei antes de aplicá-la. Queria minha orelha com tamanha normal de volta. Comecei a passar o produto e, como temia, não foi suficiente. A pomada era muito pequena e a orelha muito grande. Percebi então que aquilo devia ser grave, uma emergência médica. Sendo assim, me dirigi rapidamente ao hospital, com orelha lambuzada e tudo.
– Orelha crescendo? – perguntou a moça que fazia a triagem no hospital.
Contei o que estava acontecendo e ela permaneceu me fitando com certa estranheza. Notei que estava com as sobrancelhas em oposição. Por fim, me encaminhou para o doutor.
– Especialista de orelhas? – perguntei.
– É... quase isso... – respondeu me indicando ao psiquiatra.
Chegando lá, o doutor me fez sentar e me fazer perguntas. Relatei o estranho fenômeno auricular, a rejeição que poderia sentir pela orelha e até o medo de ter problemas de coluna futuramente.
Muito calmamente, o doutor ouviu o meu caso fazendo rápidas anotações em um bloco. Por fim decretou:
– Senhor Almeida – como me chamo. – Ouvi a sua história e observei sua orelha. Não encontrei qualquer variação anatômica que pudesse sugerir qualquer coisa. Acho que esse problema está muito mais na sua cabeça.
– Na cabeça?!
– Sim, na cabeça. A orelha está normal, o senhor se encontra bem de saúde, com o peso em dia...
– Quero dizer, esse problema, na verdade, está apenas na sua cabeça.
– Na cabeça – repeti convencido de ter achado a resposta.
Agradeci o doutor por ter solucionado meu problema de uma forma simples e eficiente, sem qualquer intervenção médica ou cirúrgica, só na conversa. Com um lenço de papel, limpei a orelha lambuzada um pouco constrangido por um engano tão bobo.
– Posso ajudá-lo? – o rapaz da farmácia perguntou.
– Eu estive aqui outro dia e levei uma pomada para a orelha.
– Sim, estou lembrado...
– Pois então, o médico disse que o problema não é na orelha e sim na cabeça.
– Humm... entendo...
– Gostaria de uma pomada pra cabeça, ela que está crescendo. Só que dessa vez uma pomada grande, a última que levei não deu pra nada!
Textos do antigo "O Salamandra" atualizados periodicamente de tempos em tempos no transcorrer dos dias a medida dos acontecimentos. As atualizações ocorrem regularmente ou aleatoriamente de forma regular. Quando, por ventura, o autor esquecer, provavelmente não irá se lembrar. Contudo, assim que recobrar a memória há uma grande probabilidade que o faça.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
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Um comentário:
engraçado demais!!
bejus!
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