Ele vinha correndo, correndo pra burro. Provavelmente estava atrasado, ele sempre estava um pouco além da hora. Quando não estava atrasado para assistir, era para dar aula. Pois então, sua história estava geralmente no meio de uma aula, quando não no meio, no fim. Garotinho estudioso, pode parecer, mas nem tanto...
Estudar demais? Não sei ao certo se foi por causa disso. Normalmente essas coisas acontecem por outros motivos, mais glamourosos. Mas, de qualquer forma, o estudo também deve ter influenciado um pouco. Geralmente é assim, depois de ficar tanto tempo assistindo aula, quando passa para o outro lado não suporta a mudança. Se tiver cabeça fraca, então, entra em parafuso rapidinho. Começa a pensar que é gênio, que sabe tudo e no final das contas se torna um chato. Um chato, isso sim ele estava correndo risco de virar.
Mas agora ele não estava sendo, nem poderia, correndo desse jeito. Quando a pessoa corre não tem como ficar tagarelando sem parar, sobreviver é o máximo que se consegue. Talvez por isso ele goste tanto de correr, porque obriga a pessoa a resistir e não cair desmaiado no chão. Isso sim seria patético, um cara assim meio chato desmaiado, estatelado no parque. Com certeza, se isso acontecesse seria o fim à fama de durão que ele tanto preza.
Como dizia, ele estava ficando chato. Não me recordo ao certo quando começou tudo, mas creio que foi bem gradual. O sucesso, ou sei lá o que, deve ter subido cabeça aos poucos. O mais triste é ver que ele se deixou levar pelo fato de ter virado professor. Sim, isso mesmo, ele tirou os pés do chão só porque começou a dar aula. Se ainda fosse por um bom motivo ou pelo menos algo digno ou minimamente rentável...
Falemos então da parte clínica, os sintomas propriamente ditos. Preste atenção para ver se não está ocorrendo com você. Imediatamente, o mais perceptível estava na forma de falar. Um jeito diferente, ele agora falava muito mais formalmente. Era muito “com licença” pra lá e “obrigado” pra cá. Outro dia acho que ouvi ele falar “obséquio”, mas tinha sido só um espirro, de qualquer forma foi um susto. Além disso, gíria, por exemplo, não dizia mais. Essa mudança foi nítida e em pouco tempo todos notavam.
– Calma aí... moço apressado... – comentou a velhinha com quem quase trombou.
Agora ele corria. Correndo ele não era chato, lembra? Não podia falar, pois era abrindo a boca que se tornava inconveniente. Além das atitudes frescas e formas chatas de se portar, a maneira mais chata de se tornar um chato era falando.
A primeira pessoa celebre a fazer isso foi o Pelé, acho eu. Não me refiro a determinado drible ou um lance genial, a primeira coisa em questão foi falar de si mesmo na terceira pessoa. Vocês entendem, quando a pessoa fala dela própria como se fosse outra. Igual ao Pelé, que falava do Pelé como se não fosse ele. Pois então, isso daí é muito chato e estava começando a acontecer com ele.
O começo foi bastante sutil, ele parecia cometer um lapso e se enganava. Poucos percebiam o deslize. Daí por diante foi ficando cada vez mais freqüente, causando estranheza nas pessoas ao redor. Quando menos percebeu, porém, parou de falar na primeira pessoa e só usava a terceira. As coisas deixaram de ser dele e passaram a ser de outro, da terceira pessoa. Para aqueles que não entendiam, aquilo tudo ficava tudo enigmático, quase incompreensível. Nada mais era feito ou dizia respeito a ele, apenas ao outro. Para os demais, que entendiam o que estava acontecendo, ele havia se tornado um grandessíssimo chato, já que falava de si como se fosse uma entidade.
– Da próxima vez que o Alex sair, ele compra a peça que está faltando – contou ao colega de trabalho que apenas respondeu com um olhar dizendo: “esse cara é um chato!”.
Sua história era assim e não havia perspectiva de mudança. Por outro lado, de uns tempos para cá, começou-se a observar uma pequena mudança, proporcionando breves instantes de lucidez. Nesses momentos, ele voltava a utilizar a primeira pessoa, deixando de falar do outro para falar dele mesmo. Por enquanto esses momento são muito breves, mas já há uma perspectiva de melhora mais à frente.
Pessoalmente, não entendo porque isso está acontecendo comigo. Mas sempre que recobro a consciência, tento pedir ajuda para que alguém possa ajudá-lo, digo, me ajudar, mas nunca encontro alguém. Ele já procurou todo tipo de solução, não, eu já procurei, contudo sempre em vão. Ajuda, só busco alguém que possa ajudá-lo, ou melhor, me ajudar. Para piorar, além de tudo, não agüento mais ficar correndo pra lá e pra cá sem motivo, que além de matar de cansaço não ajuda em nada. Digo, não ajuda ele em nada...
Textos do antigo "O Salamandra" atualizados periodicamente de tempos em tempos no transcorrer dos dias a medida dos acontecimentos. As atualizações ocorrem regularmente ou aleatoriamente de forma regular. Quando, por ventura, o autor esquecer, provavelmente não irá se lembrar. Contudo, assim que recobrar a memória há uma grande probabilidade que o faça.
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
domingo, 19 de agosto de 2007
Um detergente chamado Amor
Parou o carrinho ao lado das prateleiras do setor de limpeza, não estava muito familiarizado com essa parte do supermercado. Aliás, supermercado não era lá um local muito freqüentado por Marcelo. Talvez pela idade, normalmente essas necessidades só aparecem no decorrer da vida, mas ele já tinha começado a procura o tal produto há um certo tempo.
– Detergente “Amor”?
– Isso mesmo, Amor.
– Não, senhor, só temos esses daqui...
– Alguma vez viu essa marca por aí?
– Sinceramente... nunca ouvi falar nesse produto – decretou o responsável do setor.
– Isso mesmo, Amor.
– Não, senhor, só temos esses daqui...
– Alguma vez viu essa marca por aí?
– Sinceramente... nunca ouvi falar nesse produto – decretou o responsável do setor.
Mais uma vez a procura tinha sido em vão, ainda não tinha sido hoje. E olhe que o Marcelo achou que estivesse perto dessa vez. Um supermercado tão abastecido, uma variedade grande de produtos, dos simples aos mais requintados, um setor de limpeza tão rico. Que nada, quem sabe outro dia.
Já era noite quando chegou em casa. Fechou a porta e procurou o interruptor de luz da cozinha. Entrava sempre pela cozinha porque tinha perdido a chave da entrada pela sala. Perdido não, devia estar em algum canto, atrás de alguma cômoda. Entrar pela cozinha nunca foi um problema, mas de uns tempos pra cá aquilo realmente estava incomodando. A cena era a mesma, a lâmpada se acendendo e a luz se projetando sobre ela, sempre lá, na mesma posição, no mesmo lugar, esperando por ele. Aquilo tudo estava lhe dando nos nervos.
– Boa noi... – parou o cumprimento no meio ao lembrar com quem estava falando.
Depois de uma recepção dessas, Marcelo foi até o quarto. O silêncio gélido fazia seus passos ecoarem no piso de madeira. Logo naquela casa, antigo palco de tantas farras e algazarras. Ponto obrigatório, onde o pessoal se reunia e se aquecia para as noitadas do fim de semana. Mas isso já faz muito tempo, logo a vida adulta chegou e trouxe de brinde prestações, responsabilidades e uma boa dose de silêncio. Mas quanto a isso já se conformara, a única coisa que faltava era acabar com ela.
– Detergente o quê?
– Amor. Detergente Amor.
– Não conheço não – falou o responsável do outro supermercado. – Tem certeza que isso existe mesmo?
– Amor. Detergente Amor.
– Não conheço não – falou o responsável do outro supermercado. – Tem certeza que isso existe mesmo?
“É claro que existe”, pensou nervosamente enquanto dirigia voltando pra casa. A resposta final Marcelo não tinha. Talvez acreditar na existência de um detergente chamado Amor fosse muito mais uma questão de fé do que razão. Ele, pessoalmente, nunca tinha visto, apenas ouvido falar a respeito. Culpa das músicas e livros que lia, que afirmavam ser esse produto a solução para os problemas. Porém, se existia ou não realmente não poderia afirmar com convicção.
Respirou fundo ajeitando a chave para entrar em casa novamente. Abriu a porta da cozinha lentamente. Com o braço direito esticado rente a parede, acendeu a luz e vislumbrou-a como todo dia. Novamente no mesmo lugar, na mesma posição. Era uma coisa feia, repulsiva, aquela sujeira toda. Chegar em casa, depois de um dia extenuante de trabalho e dar de cara com ela, aquela imensa pia de louça suja.
Falando assim parece besteira, entendo seu descontentamento, mas aquela imensa pia suja estava lá há muito tempo. Parte dela resultado dos anos da solteirice irresponsável e cafajestagens juvenis. Outra parte formada pelas mudanças que a vida impõe e as atitudes que somos obrigados a tomar. Por fim, sem poder deixar de falar, a pia também abrigava os pedaços e fragmentos dos sonhos despedaçados nesses anos todos. Dos mais infantis aos mais adultos, do cãozinho jamais reencontrado, as desculpas não pedidas a tempo e os beijos jamais aplicados. Os beijos. As frustações amorosas, essas ocupavam um lugar de destaque, dentro de uma panela suja, todas elas aguardavam de molhos esperando ser limpas e descartadas. Pois é, mas sem detergente nada feito.
– Detergente “Amor”? Isso daí realmente existe? – estranhou a funcionária.
– Obrigado, vou tentar em outro lugar.
– Obrigado, vou tentar em outro lugar.
Encontrar esse tal detergente não era uma tarefa simples. É um desses produtos cuja comercialização fica restrita a poucas casas do ramo. Uns têm sorte e conseguem encontrá-lo rapidamente, mas na maioria das vezes demanda visitas freqüentes ao mercado. Algumas pessoas se frustram e acabam desistindo do sonho de uma pia limpa, aceitando conviver com uma cozinha prejudicada. Outros estão dispostos a passar por tudo até encontrar o Amor.
– Detergente o quê? Ehehehehehe, é esse mesmo o nome dele? - não se conteve o rapaz do mercado.
– Sim, detergente Amor.
– Não, amigo, essas coisas não se vendem por aqui...
– Sim, detergente Amor.
– Não, amigo, essas coisas não se vendem por aqui...
domingo, 12 de agosto de 2007
Nossas Cargas Pesadas
Confesso que não sei exatamente o nome dele, do cantor da música tema, mas a voz é a mesma, inconfundível. A música era importante para criar a atmosfera, remetendo há um bom tempo atrás, quando o seriado passava nas primeiras temporadas. Anos 80, meados dos anos 80. Eu deveria ter perto dos meus 10-11 anos, talvez até menos. Era jovem demais para ligar pra essas datas, porém, aguardava ansioso os episódios.Pedro e Bino eram os nomes dos personagens. Não só eram, como ainda são, já que o seriado voltou. Carga Pesada, um dos primeiros seriados que me lembro ter acompanhado de perto. A história dos amigos caminhoneiros Pedro e Bino, a dupla formada por Antonio Fagundes e Stênio Garcia. Pelo menos uma vez por semana eu me transportava do apartamento em Curitiba para a vida na estrada.
A minha infância foi repleta de seriados. Fui uma daquelas crianças crescidas em apartamento e, antes que me olhe com desprezo, não pense que isso me fez mais inocente, também tive meus momentos. Mas hoje quando penso no Carga Pesada acho engraçado e, de certa forma, louvável. Afinal de contas, trouxe histórias típicas de caminhoneiros (fantasiadas um bom tanto, é verdade) a todo público da televisão. E histórias bem brasileiras, o que é legal, longe daqueles jargões importados que não fazem muito sentidos aqui, tipo Eles estão fugindo, Johnny, precisamos avisar os tiras!
Mas daí eu volto aos longínquos tempos das primeiras temporadas da série. Eu, uma criança de cidade grande, vendo as aventuras de Pedro e Bino. Visualmente já era um choque, a maioria das cenas se passava na cabine do caminhão, a conversa fluía na boléia e a autoestrada era o cenário. Os atores eram caracterizados de acordo, isto é, sem o glamour das luzes da televisão, com muita barba e camiseta regata. As histórias não fugiam dos seriados normais, com a dupla se metendo em enrascadas, mocinhos e bandidos, mas tudo com uma boa camada de poeira e graxa. Vire e mexe o caminhão quebrava e a história se passava por terra, em algum canto perdido do país.
Interessante pensar como um ambiente tão diferente podia fascinar tanto uma criança, eu no caso, transformando os protagonista do seriado em espécies de heróis. Sim, Pedro e Bino de certa forma foram. Essa coisa de viajar, ganhar o asfalto, dia e noite de estrada, sem horário para chegar e aventuras emocionantes animavam qualquer jovem, comigo não foi diferente. Eu queria fazer parte de tudo aquilo, como o Pedro e o Bino. Talvez um pouco mais como o Pedro, que mesmo barbudo, ainda era o Fagundes e quase sempre se envolvia com umas atrizes globais despenteadas, para parecerem da estrada. Uma visão romântica, eu sei, mas não se esqueça que era criança naquela época.
Depois disso o Carga Pesada ficou um bom tempo fora do ar. Muitos seriados apareceram e outros protagonistas e ídolos foram apresentados. Os enlatados americanos prevaleceram e os sonhos daquela criança foram ficando mais próximos das perseguições dos tiras e comer Marshmelon em volta de uma fogueira.
Hoje em dia o seriado está passando novamente. Hoje não, já faz um bom tempo. E a criança que sempre assistia no passado agora já não é mais criança (pelo menos tão criança...). Atualmente, desde que as viagens de ônibus passaram a ser uma necessidade, a estrada deixou de ser um lugar tão excitante. Os caminhões, esses se tornaram apenas muito mais um motivo de preocupação, fossem eles dirigidos pelo Pedro ou pelo Bino. Os tempos mudaram, mas algumas coisas ainda permanecem. Boa parte dos caminhoneiros continuam barbudos, os seriados americanos continuam falando em tiras e o Antonio Fagundes continua pegando as atrizes globais (penteadas ou despenteadas). Eu, por outro lado, continuo almejando o jeito sedutor do Pedro, embora meu desempenho esteja mais próximo do Bino, isto é, atacando pelas beiradas.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Muito mais que um problema de orelha
Minha orelha está crescendo, crescendo de verdade. Ficando maior, maior a cada dia. Se ainda fossem as duas, mas não, só a direita. É só a direita que cresce, a esquerda está boa. Boa é maneira de dizer, pois está ficando cada vez menor. Comparativamente, eu digo. A pessoa olha a esquerda antes e depois de ver a outra grande pensa que é ela que está encolhendo.
Eu estava em casa quando me dei conta. Dava para sentir, estava dolorido. Não eu, a orelha, orelha direita. Estava meio dolorido, na ponta, como se tivessem picado. Picado não, mordido ou dado uma dentada.
– Deus me livre!
– É verdade – repetiu. – Nessa região tem muitos morcegos!
– Claro que não! – me defendi. – Acha que eu não perceberia se um morcego viesse me picar?
– Quer dizer, morder.
– Certo, morder. Eu teria percebido se um morcego tivesse me mordido!
– Percebido? Não, claro que não. Esses bichos são assim, muito sorrateiros...
– Sorrateiros, é? Conta outra... – desconversei.
É claro que não poderia ser isso. Francisco Beltrão não é uma megalópole, mas também não era uma floresta, com mata e animais selvagens. Nunca tinha ouvido falar em morcegos por aqui. Além do mais, o problema não era mordida, mas o crescimento da orelha. Uma mordida, no máximo, diminuiria o tamanho dela.
– Crescendo? – analisou o cara da farmácia. – Deve ser alguma reação de picada.
– Picada?
– É, picada. Deve ter sido uma picada de algum bicho ou alguma coisa.
– Alguma “coisa”, tipo o quê?
– Tipo “coisa”... – desconversou. – Essa pomada é boa pra isso.
– Você acha que a coisa...
– Obrigado e tenha um bom dia – finalizou entregando o pacote.
Saí de lá intrigado. Alguma coisa tinha me picado, alguma coisa que não sabia o que era e que devia por aí, à solta. Coisa que pica deve ser uma abelha, uma vespa ou um marimbondo. Morcego não, morcego não pica, só morde. Será que não fui mordido?
Chegando em casa ansioso, rasguei o pacote da farmácia e peguei a pequena pomada. Pequena e cara. Não duraria muito, mas nem pensei antes de aplicá-la. Queria minha orelha com tamanha normal de volta. Comecei a passar o produto e, como temia, não foi suficiente. A pomada era muito pequena e a orelha muito grande. Percebi então que aquilo devia ser grave, uma emergência médica. Sendo assim, me dirigi rapidamente ao hospital, com orelha lambuzada e tudo.
– Orelha crescendo? – perguntou a moça que fazia a triagem no hospital.
Contei o que estava acontecendo e ela permaneceu me fitando com certa estranheza. Notei que estava com as sobrancelhas em oposição. Por fim, me encaminhou para o doutor.
– Especialista de orelhas? – perguntei.
– É... quase isso... – respondeu me indicando ao psiquiatra.
Chegando lá, o doutor me fez sentar e me fazer perguntas. Relatei o estranho fenômeno auricular, a rejeição que poderia sentir pela orelha e até o medo de ter problemas de coluna futuramente.
Muito calmamente, o doutor ouviu o meu caso fazendo rápidas anotações em um bloco. Por fim decretou:
– Senhor Almeida – como me chamo. – Ouvi a sua história e observei sua orelha. Não encontrei qualquer variação anatômica que pudesse sugerir qualquer coisa. Acho que esse problema está muito mais na sua cabeça.
– Na cabeça?!
– Sim, na cabeça. A orelha está normal, o senhor se encontra bem de saúde, com o peso em dia...
– Quero dizer, esse problema, na verdade, está apenas na sua cabeça.
– Na cabeça – repeti convencido de ter achado a resposta.
Agradeci o doutor por ter solucionado meu problema de uma forma simples e eficiente, sem qualquer intervenção médica ou cirúrgica, só na conversa. Com um lenço de papel, limpei a orelha lambuzada um pouco constrangido por um engano tão bobo.
– Posso ajudá-lo? – o rapaz da farmácia perguntou.
– Eu estive aqui outro dia e levei uma pomada para a orelha.
– Sim, estou lembrado...
– Pois então, o médico disse que o problema não é na orelha e sim na cabeça.
– Humm... entendo...
– Gostaria de uma pomada pra cabeça, ela que está crescendo. Só que dessa vez uma pomada grande, a última que levei não deu pra nada!
Eu estava em casa quando me dei conta. Dava para sentir, estava dolorido. Não eu, a orelha, orelha direita. Estava meio dolorido, na ponta, como se tivessem picado. Picado não, mordido ou dado uma dentada.
– Deus me livre!
– É verdade – repetiu. – Nessa região tem muitos morcegos!
– Claro que não! – me defendi. – Acha que eu não perceberia se um morcego viesse me picar?
– Quer dizer, morder.
– Certo, morder. Eu teria percebido se um morcego tivesse me mordido!
– Percebido? Não, claro que não. Esses bichos são assim, muito sorrateiros...
– Sorrateiros, é? Conta outra... – desconversei.
É claro que não poderia ser isso. Francisco Beltrão não é uma megalópole, mas também não era uma floresta, com mata e animais selvagens. Nunca tinha ouvido falar em morcegos por aqui. Além do mais, o problema não era mordida, mas o crescimento da orelha. Uma mordida, no máximo, diminuiria o tamanho dela.
– Crescendo? – analisou o cara da farmácia. – Deve ser alguma reação de picada.
– Picada?
– É, picada. Deve ter sido uma picada de algum bicho ou alguma coisa.
– Alguma “coisa”, tipo o quê?
– Tipo “coisa”... – desconversou. – Essa pomada é boa pra isso.
– Você acha que a coisa...
– Obrigado e tenha um bom dia – finalizou entregando o pacote.
Saí de lá intrigado. Alguma coisa tinha me picado, alguma coisa que não sabia o que era e que devia por aí, à solta. Coisa que pica deve ser uma abelha, uma vespa ou um marimbondo. Morcego não, morcego não pica, só morde. Será que não fui mordido?
Chegando em casa ansioso, rasguei o pacote da farmácia e peguei a pequena pomada. Pequena e cara. Não duraria muito, mas nem pensei antes de aplicá-la. Queria minha orelha com tamanha normal de volta. Comecei a passar o produto e, como temia, não foi suficiente. A pomada era muito pequena e a orelha muito grande. Percebi então que aquilo devia ser grave, uma emergência médica. Sendo assim, me dirigi rapidamente ao hospital, com orelha lambuzada e tudo.
– Orelha crescendo? – perguntou a moça que fazia a triagem no hospital.
Contei o que estava acontecendo e ela permaneceu me fitando com certa estranheza. Notei que estava com as sobrancelhas em oposição. Por fim, me encaminhou para o doutor.
– Especialista de orelhas? – perguntei.
– É... quase isso... – respondeu me indicando ao psiquiatra.
Chegando lá, o doutor me fez sentar e me fazer perguntas. Relatei o estranho fenômeno auricular, a rejeição que poderia sentir pela orelha e até o medo de ter problemas de coluna futuramente.
Muito calmamente, o doutor ouviu o meu caso fazendo rápidas anotações em um bloco. Por fim decretou:
– Senhor Almeida – como me chamo. – Ouvi a sua história e observei sua orelha. Não encontrei qualquer variação anatômica que pudesse sugerir qualquer coisa. Acho que esse problema está muito mais na sua cabeça.
– Na cabeça?!
– Sim, na cabeça. A orelha está normal, o senhor se encontra bem de saúde, com o peso em dia...
– Quero dizer, esse problema, na verdade, está apenas na sua cabeça.
– Na cabeça – repeti convencido de ter achado a resposta.
Agradeci o doutor por ter solucionado meu problema de uma forma simples e eficiente, sem qualquer intervenção médica ou cirúrgica, só na conversa. Com um lenço de papel, limpei a orelha lambuzada um pouco constrangido por um engano tão bobo.
– Posso ajudá-lo? – o rapaz da farmácia perguntou.
– Eu estive aqui outro dia e levei uma pomada para a orelha.
– Sim, estou lembrado...
– Pois então, o médico disse que o problema não é na orelha e sim na cabeça.
– Humm... entendo...
– Gostaria de uma pomada pra cabeça, ela que está crescendo. Só que dessa vez uma pomada grande, a última que levei não deu pra nada!
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