Textos do antigo "O Salamandra" atualizados periodicamente de tempos em tempos no transcorrer dos dias a medida dos acontecimentos. As atualizações ocorrem regularmente ou aleatoriamente de forma regular. Quando, por ventura, o autor esquecer, provavelmente não irá se lembrar. Contudo, assim que recobrar a memória há uma grande probabilidade que o faça.

sábado, 28 de julho de 2007

Reflexões do Pan

Lembro-me do começo do Pan, a repercussão que teve aquela história das vaias ao presidente. O auge da anarquia, o povo vaiando o seu próprio chefe de Estado. O presidente Lula, de tão magoado que ficou, abriu mão de fazer a abertura oficial dos jogos. Nossa, o povo tinha enfim agido certo.

Aquele fato de certa forma foi bastante inesperado. No segundo mandato, o presidente Lula talvez nunca tenha gozado de tanta popularidade, 64% de aprovação segundo as últimas pesquisas. Sendo assim, como poderia ocorrer uma reação tão hostil a um presidente tão popular? Apareceram todos os tipos de explicações, mas a dúvida ainda persistia.

Porém, a medida que os jogos foram avançado, as vaias começaram a se tornar tão frequentes que nos permitiu questionamentos interessantes.

Começando pelo incidente da abertura. As vaias ao presidente foram bastante compreensivas, tendo em vista que os problemas éticos têm ganhado muito destaque ultimamente. Aliás, a própria realização dos jogos Pan-americanos tem dividido opiniões. Os gastos superaram em dez vezes o previsto, o que é preocupante sabendo da origem pública desse dinheiro. As vaias demonstraram a reprovação do público, reconhecendo a maneira errada de agir com os recursos público. Por outro lado, fico aqui me perguntando: se esse público estava tão revoltado com a forma com que o Pan foi realizado, por que tinham decidido prestigiá-lo?

Tinha tido o trabalho de sair de casa, enfrentado filas enormes, pago estacionamento com preços no teto, isso sem falar que devem ter desembolsado uma boa quantia pelo ingresso, aplaudido o show de dança, fizeram olla, mas quando chegou o presidente vaiaram indignados, como quem diz Esse Pan-americano é uma vergonha! Isso me parece aquela história da pessoa que fala mal do restaurante, mas volta para lá todo dia sem falta, mesmo assim nunca deixa de falar mal. É engraçado pensar, mas passado isso muito provavelmente o Lula se candidate ao terceiro mandato e muito provavelmente ganhe com ajuda de cada um dos que o vairam. Ri melhor quem ri por último...

Mas o excelentíssimo presidente não foi o único alvejado pelas vaias. Boa parte dos outros atletas não brasileiros escutaram muitas delas, principalmente se estivessem concorrendo contra um dos nossos. De certa forma, nada mais natural, uma prática dessas vinda das torcidas de futebol, ficar secando o adversário para que o nosso atleta ganhe. Porém, revela bem a ótica da vitória do esporte na nossa visão. Mais importante que competir é ganhar e tudo que pudermos fazer para ajudar o nosso patrício é válido, afinal somos um povo de sangue quente. Certo, entendi, mas será que essa não seria uma pequena distorção do ideal da união entre os povos pregado por esses jogos?

Torcer fervorosamente pelo atleta de nosso país pode ser visto como patriotismo, mas não é só um sentimento puro que pode ser extraído disso. Entra aí uma boa pitada de xenofobia, sim. Durante as olimpíadas de 1936, em Berlim, os alemães também torciam fervorosamente pelo seus atletas, mas a história de hoje prefere não chamá-los de patriotas.

Se o brasileiro ganhar legal, mas se isso não acontecer não é tão grave, certo? Não vai mudar o eixo da Terra, não é verdade? Sim, claro que é importante, fale isso para o Galvão Bueno!

Uma coisa que aqui parece acontecer frequentemente é o fato do esporte não ser visto como apenas como um esporte. Tenho curiosidade de saber como deve ser nos outros países, mas aqui no Brasil esporte é tudo. A gente tem que ganhar, a bandeira verde-amarelo tem que terminar no topo, o hino nacional tem que tocar no estádio. O dia perfeito é quando o Brasil ganhar no vôlei, no basquete, no futebol e na maratona. Mais perfeito que isso vai ser quando o Brasil passar os Estados Unidos no quadro de medalhas. O Brasil terminar em primeiro, a maior potência esportiva, uau!

Grande coisa, o dia que isso acontecer sabe o que vai mudar na prática? nad a...

E eu faço questão de ficar aqui, esperando que esse dia fantástico chegue. O Brasil vai ser a maior potência esportiva, o maior ganhador de medalhas. Isso vai acontecer e não vai mudar nada. O eixo da Terra vai continuar igual, o preço do leite idem. Só quero estar presente nessa hora para ver o que o Galvão Bueno vai dizer...

quarta-feira, 25 de julho de 2007

História de magrela

Andei meio sumido ultimamente, né? Pois é... desculpe.

Vendo a data da última atualização chego a ficar corado de vergonha. Dois de julho, diz lá. A última vez que escrevi foi em dois de julho. Dois de julho, e pensar que nem lembro sobre o que foi esse texto. Lê-lo? Nem pensar! Só ia expor ainda mais meu relaxo. Prefiro continuar assim, agindo naturalmente, sem levantar suspeitas. Nessas horas a gente sai assoviando e olhando para os lados como se nada tivesse acontecido. Nada, nadinha...

Ontem levei a maior quedão de bicicleta. Não ria, é verdade. Eu que sempre me senti jovem e rebelde-sem-causa desfilando por aí de bike, pûs os pés na realidade juntamente com as mão, o joelho, a canela e o queixo. Para a minha sorte (ou azar...), a queda só não foi pior porque a lama amorteceu.

Deu para imaginar como ficou minha vestimenta, né?

Imunda, completamente imunda, lama por toda parte. Uma sujeira completa, quase imprestável. A primeira idéia que me ocorreu foi mergulá-la na lama e tingí-la de marrom de uma vez. O prejuízo só não foi maior porque tenho fé na f'órmula do novo Ace.

Sei que é meio besta falar, mas devo confessar que a primeira coisa que fiz depois do ocorrido foi olhar para os lados. Ver se não tinha ninguém vendo, isso que queria saber. Você entende que é o tipo de situação que ninguém gosta de ser visto, não é? Por sorte não havia ninguém, nehuma alma viva até onde a vista alcança. Menos mal, pensei retirando a bicicleta da posição horizontal. Ainda bem, que não tem ninguém. Apenas aquela cortina tremendo na janela do vizinho.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Sobre a genialidade vinda dos primos

– Ahn, ahn, ahn!!! – Luiz atravessou a sala gargalhando alto. – Eu sempre soube… eu sempre soube disso!!

Quando se ouvia dele essa risada completa e ligeiramente forçada, só significava uma coisa: pura provocação.

– Não é verdade, não é verdade!! – rebateu Fernanda em seguida, geralmente a primeira pessoa a sucumbir frente às tentativas dele.

Aquele não era o início e nem o final de uma daquelas discussões entre irmãos, na verdade apenas mais um capítulo desses quase 30 anos de parentesco.

– Foi só uma pesquisa, não significa nada – Fernanda perseguiu o irmão deixando o jornal para trás.

Eram freqüentes as conversas terminarem em perseguições, isso porque o Luiz tinha mania de sair no meio das discussões. Coincidentemente quando faltavam argumentos. Já a Fernanda era do tipo que não largava essas trovas pela metade, não arredava o pé enquanto achasse que tinha razão. O jornal, estopim de mais essa confusão, ficou solto no canto, enquanto a discussão ganhava outros cômodos da casa.

Enquanto o silêncio se refazia na sala, me aproximei e peguei o jornal para saber o motivo da discórdia de hoje. A reportagem não era de capa, mas merecia uma certa atenção, prometendo ser mais um episódio das brigas entre irmãos. O título dizia assim: Pesquisa revela que primogênitos são realmente mais inteligentes.

Movido pela estranheza inicial, aproximei o periódico e continuei a leitura. A matéria explicava uma experiência analisando os desempenhos milhares de jovens noruegueses durante o vestibular. De acordo com os resultados, constatou-se que os melhores desempenhos foram alcançados pelos primogênitos. “Pelos primogênitos?”, pensei comigo mesmo.

– E desde quando os resultados escolares são parâmetro para se determinar maior ou menos inteligente? – argumentou Fernanda.
– Mas é claro que são! – rebateu o Luiz. – Ainda mais o vestibular da Noruega, que, muito provavelmente, é todo escrito em norueguês!

A discussão persistia, mas eu permaneci lendo a tal reportagem. Lá dizia que a diferença de Q.I. entre os irmãos era baixa, mas constante. Essa diferença poderia ser significativa na hora do ingresso a uma faculdade. O estudo apontou que a diferença era de 3 pontos a favor dos primogênitos.

– É aquilo que eu sempre disse e vocês nunca deram ouvidos – o Luiz continuou a provocação. –Os mais velhos são muito mais inteligentes e é por isso que devem orientar e dar ordens para os mais novos.

– Mas e você, Luiz? – Fernanda sempre incisiva. – Se os irmãos mais velhos fossem mais inteligentes, como você explica o desempenho sofrível que você sempre teve na escola?
– Veja bem, Fernanda... é como você mesmo disse: “Desde quando os resultados escolares são parâmetro para se determinar maior ou menor inteligência?”.
– Olha, seu... – ela exclamou arremessando qualquer coisa.

A explicação para a diferença de Q.I. em favor dos mais velhos estaria em aspectos sociais e não biológicos, dizia a reportagem. Segundo os cientistas, a diferença aconteceria porque os mais velhos não precisariam dividir a atenção dos pais. Outra corrente ainda afirmava que os mais velhos estariam habituados a ensinar os mais novos, o que resultaria em um melhor aprendizado favorecendo os primogênitos.

– Você nos ensinando alguma coisa? Qual é, Luiz, conta outra... não me lembro de nada de bom que você tenha me ensinado nesses anos todos – ela disse.
– Como não se lembra? – espantou-se. – Viu só, mais uma prova que os mais velhos têm uma cabeça melhor!
– Olha, seu... – voltou a atirar outro objeto.

Segundo os cientistas, a diferença favorável aos mais velhos aumentaria 1 ponto a cada filho, isto é, a medida que mais filhos fossem adicionados, maior seria a vantagem do Q.I. em favor dos primogênitos.

– E você, André – interromperam minha leitura. – O que acha dessa história do Q.I. mais alto dos primogênitos?
– É, André, você que é o caçula, o que acha? Se essa pesquisa estiver certa, você é o mais... mais “desprivilegiado” – Fernanda disse.

– Ela quis dizer o mais “deficientezinho” – completou o Luiz com sarcasmo.
– O que eu acho disso?
– Sim – responderam simultaneamente.

– Ora, ora... pesquisas. Vocês sabem, elas podem dizer o que quiser. Muito provavelmente na próxima semana sairá outra pesquisa que vai dizer exatamente o oposto e as pessoas ainda vão se surpreender – disse colocando o jornal em cima da mesa. – Eu, por outro lado, não me impressiono mais. Deixo toda a surpresa para os primogênitos – me despedi indo para o quarto.

A Fernanda e o Luiz apenas se entreolharam confusos tentando entender. Eu, por outro lado, assim que cheguei ao quarto tranquei a porta e corri atrás do Aurélio. Vai que numa dessas eles querem retomar o assunto?

– “Primíparo”... “primitivo”...”primo”... achei! Está aqui, “pri-mo-gê-ni-to”...

Quem sou eu