Lembro-me do começo do Pan, a repercussão que teve aquela história das vaias ao presidente. O auge da anarquia, o povo vaiando o seu próprio chefe de Estado. O presidente Lula, de tão magoado que ficou, abriu mão de fazer a abertura oficial dos jogos. Nossa, o povo tinha enfim agido certo.
Aquele fato de certa forma foi bastante inesperado. No segundo mandato, o presidente Lula talvez nunca tenha gozado de tanta popularidade, 64% de aprovação segundo as últimas pesquisas. Sendo assim, como poderia ocorrer uma reação tão hostil a um presidente tão popular? Apareceram todos os tipos de explicações, mas a dúvida ainda persistia.
Porém, a medida que os jogos foram avançado, as vaias começaram a se tornar tão frequentes que nos permitiu questionamentos interessantes.
Começando pelo incidente da abertura. As vaias ao presidente foram bastante compreensivas, tendo em vista que os problemas éticos têm ganhado muito destaque ultimamente. Aliás, a própria realização dos jogos Pan-americanos tem dividido opiniões. Os gastos superaram em dez vezes o previsto, o que é preocupante sabendo da origem pública desse dinheiro. As vaias demonstraram a reprovação do público, reconhecendo a maneira errada de agir com os recursos público. Por outro lado, fico aqui me perguntando: se esse público estava tão revoltado com a forma com que o Pan foi realizado, por que tinham decidido prestigiá-lo?
Tinha tido o trabalho de sair de casa, enfrentado filas enormes, pago estacionamento com preços no teto, isso sem falar que devem ter desembolsado uma boa quantia pelo ingresso, aplaudido o show de dança, fizeram olla, mas quando chegou o presidente vaiaram indignados, como quem diz Esse Pan-americano é uma vergonha! Isso me parece aquela história da pessoa que fala mal do restaurante, mas volta para lá todo dia sem falta, mesmo assim nunca deixa de falar mal. É engraçado pensar, mas passado isso muito provavelmente o Lula se candidate ao terceiro mandato e muito provavelmente ganhe com ajuda de cada um dos que o vairam. Ri melhor quem ri por último...
Mas o excelentíssimo presidente não foi o único alvejado pelas vaias. Boa parte dos outros atletas não brasileiros escutaram muitas delas, principalmente se estivessem concorrendo contra um dos nossos. De certa forma, nada mais natural, uma prática dessas vinda das torcidas de futebol, ficar secando o adversário para que o nosso atleta ganhe. Porém, revela bem a ótica da vitória do esporte na nossa visão. Mais importante que competir é ganhar e tudo que pudermos fazer para ajudar o nosso patrício é válido, afinal somos um povo de sangue quente. Certo, entendi, mas será que essa não seria uma pequena distorção do ideal da união entre os povos pregado por esses jogos?
Torcer fervorosamente pelo atleta de nosso país pode ser visto como patriotismo, mas não é só um sentimento puro que pode ser extraído disso. Entra aí uma boa pitada de xenofobia, sim. Durante as olimpíadas de 1936, em Berlim, os alemães também torciam fervorosamente pelo seus atletas, mas a história de hoje prefere não chamá-los de patriotas.
Se o brasileiro ganhar legal, mas se isso não acontecer não é tão grave, certo? Não vai mudar o eixo da Terra, não é verdade? Sim, claro que é importante, fale isso para o Galvão Bueno!
Uma coisa que aqui parece acontecer frequentemente é o fato do esporte não ser visto como apenas como um esporte. Tenho curiosidade de saber como deve ser nos outros países, mas aqui no Brasil esporte é tudo. A gente tem que ganhar, a bandeira verde-amarelo tem que terminar no topo, o hino nacional tem que tocar no estádio. O dia perfeito é quando o Brasil ganhar no vôlei, no basquete, no futebol e na maratona. Mais perfeito que isso vai ser quando o Brasil passar os Estados Unidos no quadro de medalhas. O Brasil terminar em primeiro, a maior potência esportiva, uau!
Grande coisa, o dia que isso acontecer sabe o que vai mudar na prática? nad a...
E eu faço questão de ficar aqui, esperando que esse dia fantástico chegue. O Brasil vai ser a maior potência esportiva, o maior ganhador de medalhas. Isso vai acontecer e não vai mudar nada. O eixo da Terra vai continuar igual, o preço do leite idem. Só quero estar presente nessa hora para ver o que o Galvão Bueno vai dizer...
Textos do antigo "O Salamandra" atualizados periodicamente de tempos em tempos no transcorrer dos dias a medida dos acontecimentos. As atualizações ocorrem regularmente ou aleatoriamente de forma regular. Quando, por ventura, o autor esquecer, provavelmente não irá se lembrar. Contudo, assim que recobrar a memória há uma grande probabilidade que o faça.
sábado, 28 de julho de 2007
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Quem sou eu
- André Melo
- muitas pessoas
Um comentário:
eu digo e repito! esse país tá de cabeça p/ baixo!
beijos sumido!
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