Textos do antigo "O Salamandra" atualizados periodicamente de tempos em tempos no transcorrer dos dias a medida dos acontecimentos. As atualizações ocorrem regularmente ou aleatoriamente de forma regular. Quando, por ventura, o autor esquecer, provavelmente não irá se lembrar. Contudo, assim que recobrar a memória há uma grande probabilidade que o faça.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Patologicamente na terceira pessoa

Ele vinha correndo, correndo pra burro. Provavelmente estava atrasado, ele sempre estava um pouco além da hora. Quando não estava atrasado para assistir, era para dar aula. Pois então, sua história estava geralmente no meio de uma aula, quando não no meio, no fim. Garotinho estudioso, pode parecer, mas nem tanto...

Estudar demais? Não sei ao certo se foi por causa disso. Normalmente essas coisas acontecem por outros motivos, mais glamourosos. Mas, de qualquer forma, o estudo também deve ter influenciado um pouco. Geralmente é assim, depois de ficar tanto tempo assistindo aula, quando passa para o outro lado não suporta a mudança. Se tiver cabeça fraca, então, entra em parafuso rapidinho. Começa a pensar que é gênio, que sabe tudo e no final das contas se torna um chato. Um chato, isso sim ele estava correndo risco de virar.

Mas agora ele não estava sendo, nem poderia, correndo desse jeito. Quando a pessoa corre não tem como ficar tagarelando sem parar, sobreviver é o máximo que se consegue. Talvez por isso ele goste tanto de correr, porque obriga a pessoa a resistir e não cair desmaiado no chão. Isso sim seria patético, um cara assim meio chato desmaiado, estatelado no parque. Com certeza, se isso acontecesse seria o fim à fama de durão que ele tanto preza.

Como dizia, ele estava ficando chato. Não me recordo ao certo quando começou tudo, mas creio que foi bem gradual. O sucesso, ou sei lá o que, deve ter subido cabeça aos poucos. O mais triste é ver que ele se deixou levar pelo fato de ter virado professor. Sim, isso mesmo, ele tirou os pés do chão só porque começou a dar aula. Se ainda fosse por um bom motivo ou pelo menos algo digno ou minimamente rentável...

Falemos então da parte clínica, os sintomas propriamente ditos. Preste atenção para ver se não está ocorrendo com você. Imediatamente, o mais perceptível estava na forma de falar. Um jeito diferente, ele agora falava muito mais formalmente. Era muito “com licença” pra lá e “obrigado” pra cá. Outro dia acho que ouvi ele falar “obséquio”, mas tinha sido só um espirro, de qualquer forma foi um susto. Além disso, gíria, por exemplo, não dizia mais. Essa mudança foi nítida e em pouco tempo todos notavam.

– Calma aí... moço apressado... – comentou a velhinha com quem quase trombou.

Agora ele corria. Correndo ele não era chato, lembra? Não podia falar, pois era abrindo a boca que se tornava inconveniente. Além das atitudes frescas e formas chatas de se portar, a maneira mais chata de se tornar um chato era falando.

A primeira pessoa celebre a fazer isso foi o Pelé, acho eu. Não me refiro a determinado drible ou um lance genial, a primeira coisa em questão foi falar de si mesmo na terceira pessoa. Vocês entendem, quando a pessoa fala dela própria como se fosse outra. Igual ao Pelé, que falava do Pelé como se não fosse ele. Pois então, isso daí é muito chato e estava começando a acontecer com ele.

O começo foi bastante sutil, ele parecia cometer um lapso e se enganava. Poucos percebiam o deslize. Daí por diante foi ficando cada vez mais freqüente, causando estranheza nas pessoas ao redor. Quando menos percebeu, porém, parou de falar na primeira pessoa e só usava a terceira. As coisas deixaram de ser dele e passaram a ser de outro, da terceira pessoa. Para aqueles que não entendiam, aquilo tudo ficava tudo enigmático, quase incompreensível. Nada mais era feito ou dizia respeito a ele, apenas ao outro. Para os demais, que entendiam o que estava acontecendo, ele havia se tornado um grandessíssimo chato, já que falava de si como se fosse uma entidade.

– Da próxima vez que o Alex sair, ele compra a peça que está faltando – contou ao colega de trabalho que apenas respondeu com um olhar dizendo: “esse cara é um chato!”.

Sua história era assim e não havia perspectiva de mudança. Por outro lado, de uns tempos para cá, começou-se a observar uma pequena mudança, proporcionando breves instantes de lucidez. Nesses momentos, ele voltava a utilizar a primeira pessoa, deixando de falar do outro para falar dele mesmo. Por enquanto esses momento são muito breves, mas já há uma perspectiva de melhora mais à frente.

Pessoalmente, não entendo porque isso está acontecendo comigo. Mas sempre que recobro a consciência, tento pedir ajuda para que alguém possa ajudá-lo, digo, me ajudar, mas nunca encontro alguém. Ele já procurou todo tipo de solução, não, eu já procurei, contudo sempre em vão. Ajuda, só busco alguém que possa ajudá-lo, ou melhor, me ajudar. Para piorar, além de tudo, não agüento mais ficar correndo pra lá e pra cá sem motivo, que além de matar de cansaço não ajuda em nada. Digo, não ajuda ele em nada...

4 comentários:

Amanda Beatriz disse...

eu falo na terceira pessoa! mas nunca reclamaram!
beijos!

Luciano de Carvalho disse...

grande andre, de volta a ativa, grande abraco

Anônimo disse...

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