Textos do antigo "O Salamandra" atualizados periodicamente de tempos em tempos no transcorrer dos dias a medida dos acontecimentos. As atualizações ocorrem regularmente ou aleatoriamente de forma regular. Quando, por ventura, o autor esquecer, provavelmente não irá se lembrar. Contudo, assim que recobrar a memória há uma grande probabilidade que o faça.

domingo, 19 de agosto de 2007

Um detergente chamado Amor

Parou o carrinho ao lado das prateleiras do setor de limpeza, não estava muito familiarizado com essa parte do supermercado. Aliás, supermercado não era lá um local muito freqüentado por Marcelo. Talvez pela idade, normalmente essas necessidades só aparecem no decorrer da vida, mas ele já tinha começado a procura o tal produto há um certo tempo.
– Detergente “Amor”?
– Isso mesmo, Amor.
– Não, senhor, só temos esses daqui...
– Alguma vez viu essa marca por aí?
– Sinceramente... nunca ouvi falar nesse produto – decretou o responsável do setor.

Mais uma vez a procura tinha sido em vão, ainda não tinha sido hoje. E olhe que o Marcelo achou que estivesse perto dessa vez. Um supermercado tão abastecido, uma variedade grande de produtos, dos simples aos mais requintados, um setor de limpeza tão rico. Que nada, quem sabe outro dia.

Já era noite quando chegou em casa. Fechou a porta e procurou o interruptor de luz da cozinha. Entrava sempre pela cozinha porque tinha perdido a chave da entrada pela sala. Perdido não, devia estar em algum canto, atrás de alguma cômoda. Entrar pela cozinha nunca foi um problema, mas de uns tempos pra cá aquilo realmente estava incomodando. A cena era a mesma, a lâmpada se acendendo e a luz se projetando sobre ela, sempre lá, na mesma posição, no mesmo lugar, esperando por ele. Aquilo tudo estava lhe dando nos nervos.

– Boa noi... – parou o cumprimento no meio ao lembrar com quem estava falando.

Depois de uma recepção dessas, Marcelo foi até o quarto. O silêncio gélido fazia seus passos ecoarem no piso de madeira. Logo naquela casa, antigo palco de tantas farras e algazarras. Ponto obrigatório, onde o pessoal se reunia e se aquecia para as noitadas do fim de semana. Mas isso já faz muito tempo, logo a vida adulta chegou e trouxe de brinde prestações, responsabilidades e uma boa dose de silêncio. Mas quanto a isso já se conformara, a única coisa que faltava era acabar com ela.

– Detergente o quê?
– Amor. Detergente Amor.
– Não conheço não – falou o responsável do outro supermercado. – Tem certeza que isso existe mesmo?

“É claro que existe”, pensou nervosamente enquanto dirigia voltando pra casa. A resposta final Marcelo não tinha. Talvez acreditar na existência de um detergente chamado Amor fosse muito mais uma questão de fé do que razão. Ele, pessoalmente, nunca tinha visto, apenas ouvido falar a respeito. Culpa das músicas e livros que lia, que afirmavam ser esse produto a solução para os problemas. Porém, se existia ou não realmente não poderia afirmar com convicção.

Respirou fundo ajeitando a chave para entrar em casa novamente. Abriu a porta da cozinha lentamente. Com o braço direito esticado rente a parede, acendeu a luz e vislumbrou-a como todo dia. Novamente no mesmo lugar, na mesma posição. Era uma coisa feia, repulsiva, aquela sujeira toda. Chegar em casa, depois de um dia extenuante de trabalho e dar de cara com ela, aquela imensa pia de louça suja.

Falando assim parece besteira, entendo seu descontentamento, mas aquela imensa pia suja estava lá há muito tempo. Parte dela resultado dos anos da solteirice irresponsável e cafajestagens juvenis. Outra parte formada pelas mudanças que a vida impõe e as atitudes que somos obrigados a tomar. Por fim, sem poder deixar de falar, a pia também abrigava os pedaços e fragmentos dos sonhos despedaçados nesses anos todos. Dos mais infantis aos mais adultos, do cãozinho jamais reencontrado, as desculpas não pedidas a tempo e os beijos jamais aplicados. Os beijos. As frustações amorosas, essas ocupavam um lugar de destaque, dentro de uma panela suja, todas elas aguardavam de molhos esperando ser limpas e descartadas. Pois é, mas sem detergente nada feito.

– Detergente “Amor”? Isso daí realmente existe? – estranhou a funcionária.
– Obrigado, vou tentar em outro lugar.

Encontrar esse tal detergente não era uma tarefa simples. É um desses produtos cuja comercialização fica restrita a poucas casas do ramo. Uns têm sorte e conseguem encontrá-lo rapidamente, mas na maioria das vezes demanda visitas freqüentes ao mercado. Algumas pessoas se frustram e acabam desistindo do sonho de uma pia limpa, aceitando conviver com uma cozinha prejudicada. Outros estão dispostos a passar por tudo até encontrar o Amor.

– Detergente o quê? Ehehehehehe, é esse mesmo o nome dele? - não se conteve o rapaz do mercado.
– Sim, detergente Amor.
– Não, amigo, essas coisas não se vendem por aqui...

3 comentários:

Caminhante disse...

Deve vender nos mesmos lugares onde têm o sal Agosto.

Amanda Beatriz disse...

será que existe?! eu to precisando de amor tb, hehehe! nem q seja em detergente!
nejus!

André Melo disse...

Sal agosto é bom, também vivo me perguntando onde comprá-lo. Interessante, ele salga na medida exata!

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