Textos do antigo "O Salamandra" atualizados periodicamente de tempos em tempos no transcorrer dos dias a medida dos acontecimentos. As atualizações ocorrem regularmente ou aleatoriamente de forma regular. Quando, por ventura, o autor esquecer, provavelmente não irá se lembrar. Contudo, assim que recobrar a memória há uma grande probabilidade que o faça.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Sobre a genialidade vinda dos primos

– Ahn, ahn, ahn!!! – Luiz atravessou a sala gargalhando alto. – Eu sempre soube… eu sempre soube disso!!

Quando se ouvia dele essa risada completa e ligeiramente forçada, só significava uma coisa: pura provocação.

– Não é verdade, não é verdade!! – rebateu Fernanda em seguida, geralmente a primeira pessoa a sucumbir frente às tentativas dele.

Aquele não era o início e nem o final de uma daquelas discussões entre irmãos, na verdade apenas mais um capítulo desses quase 30 anos de parentesco.

– Foi só uma pesquisa, não significa nada – Fernanda perseguiu o irmão deixando o jornal para trás.

Eram freqüentes as conversas terminarem em perseguições, isso porque o Luiz tinha mania de sair no meio das discussões. Coincidentemente quando faltavam argumentos. Já a Fernanda era do tipo que não largava essas trovas pela metade, não arredava o pé enquanto achasse que tinha razão. O jornal, estopim de mais essa confusão, ficou solto no canto, enquanto a discussão ganhava outros cômodos da casa.

Enquanto o silêncio se refazia na sala, me aproximei e peguei o jornal para saber o motivo da discórdia de hoje. A reportagem não era de capa, mas merecia uma certa atenção, prometendo ser mais um episódio das brigas entre irmãos. O título dizia assim: Pesquisa revela que primogênitos são realmente mais inteligentes.

Movido pela estranheza inicial, aproximei o periódico e continuei a leitura. A matéria explicava uma experiência analisando os desempenhos milhares de jovens noruegueses durante o vestibular. De acordo com os resultados, constatou-se que os melhores desempenhos foram alcançados pelos primogênitos. “Pelos primogênitos?”, pensei comigo mesmo.

– E desde quando os resultados escolares são parâmetro para se determinar maior ou menos inteligente? – argumentou Fernanda.
– Mas é claro que são! – rebateu o Luiz. – Ainda mais o vestibular da Noruega, que, muito provavelmente, é todo escrito em norueguês!

A discussão persistia, mas eu permaneci lendo a tal reportagem. Lá dizia que a diferença de Q.I. entre os irmãos era baixa, mas constante. Essa diferença poderia ser significativa na hora do ingresso a uma faculdade. O estudo apontou que a diferença era de 3 pontos a favor dos primogênitos.

– É aquilo que eu sempre disse e vocês nunca deram ouvidos – o Luiz continuou a provocação. –Os mais velhos são muito mais inteligentes e é por isso que devem orientar e dar ordens para os mais novos.

– Mas e você, Luiz? – Fernanda sempre incisiva. – Se os irmãos mais velhos fossem mais inteligentes, como você explica o desempenho sofrível que você sempre teve na escola?
– Veja bem, Fernanda... é como você mesmo disse: “Desde quando os resultados escolares são parâmetro para se determinar maior ou menor inteligência?”.
– Olha, seu... – ela exclamou arremessando qualquer coisa.

A explicação para a diferença de Q.I. em favor dos mais velhos estaria em aspectos sociais e não biológicos, dizia a reportagem. Segundo os cientistas, a diferença aconteceria porque os mais velhos não precisariam dividir a atenção dos pais. Outra corrente ainda afirmava que os mais velhos estariam habituados a ensinar os mais novos, o que resultaria em um melhor aprendizado favorecendo os primogênitos.

– Você nos ensinando alguma coisa? Qual é, Luiz, conta outra... não me lembro de nada de bom que você tenha me ensinado nesses anos todos – ela disse.
– Como não se lembra? – espantou-se. – Viu só, mais uma prova que os mais velhos têm uma cabeça melhor!
– Olha, seu... – voltou a atirar outro objeto.

Segundo os cientistas, a diferença favorável aos mais velhos aumentaria 1 ponto a cada filho, isto é, a medida que mais filhos fossem adicionados, maior seria a vantagem do Q.I. em favor dos primogênitos.

– E você, André – interromperam minha leitura. – O que acha dessa história do Q.I. mais alto dos primogênitos?
– É, André, você que é o caçula, o que acha? Se essa pesquisa estiver certa, você é o mais... mais “desprivilegiado” – Fernanda disse.

– Ela quis dizer o mais “deficientezinho” – completou o Luiz com sarcasmo.
– O que eu acho disso?
– Sim – responderam simultaneamente.

– Ora, ora... pesquisas. Vocês sabem, elas podem dizer o que quiser. Muito provavelmente na próxima semana sairá outra pesquisa que vai dizer exatamente o oposto e as pessoas ainda vão se surpreender – disse colocando o jornal em cima da mesa. – Eu, por outro lado, não me impressiono mais. Deixo toda a surpresa para os primogênitos – me despedi indo para o quarto.

A Fernanda e o Luiz apenas se entreolharam confusos tentando entender. Eu, por outro lado, assim que cheguei ao quarto tranquei a porta e corri atrás do Aurélio. Vai que numa dessas eles querem retomar o assunto?

– “Primíparo”... “primitivo”...”primo”... achei! Está aqui, “pri-mo-gê-ni-to”...

3 comentários:

Amanda Beatriz disse...

hauhauhuahua! mto hilário!!!! mas não concordo com isso! sou bem mais inteligente que meu irmão mais velho :P
adorei seu ultimo comentario no meu blog! ri demais! brigada!
bejus!

André Melo disse...

Pois é, pior que essa tal pesquisa existiu mesmo. O resultado dá pano pra manga de mais 17 anos de conversa. Que bom que gostou do texto e dos comentários! :)

um abraço!

Anônimo disse...

Estou fazendo uma pesquisa sobre o texto e achei muito bom o seu...

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