Textos do antigo "O Salamandra" atualizados periodicamente de tempos em tempos no transcorrer dos dias a medida dos acontecimentos. As atualizações ocorrem regularmente ou aleatoriamente de forma regular. Quando, por ventura, o autor esquecer, provavelmente não irá se lembrar. Contudo, assim que recobrar a memória há uma grande probabilidade que o faça.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Vencendo o Stress

– Onde é que ele pode estar? – remexia apreensivo a pilha de papéis. – Eu só posso ter deixado aqui!

Esse não era o lugar onde costumava guardar essas coisas, mas a essas alturas não podia descartar nenhum lugar. Encontrar objetos perdidos nunca é uma tarefa fácil. Normalmente não lembramos onde podem estar, o que resulta em não encontrá-los. Pelo menos esse é um pré-requisito para que os objetos permaneçam perdidos.

– Faz sentido – um dos cavalheiros comentou ironicamente.
– Obrigado – agradeci desgostoso.

Eram dois os cavalheiros, um mais velho (o metido a engraçadinho) e outro mais jovem. Pareciam se entreter vendo a cena do rapaz atordoado. Não sei ao certo o que faziam, mas pela atenção dedicada deviam estar trabalhando.

– Ele não vai encontrar desse jeito – comentou o mais novo.
– Claro que não – concordou o outro.

De repente, a breve conversa foi interrompida pelo estrondo de uma pilha de papéis se esparramando no chão. O rapaz, que já parecia nervoso, não se conteve e soltou um extenso vocabulário impronunciável, repleto daquelas sílabas tônicas terminadas em “u” nada elogiosas. Ele realmente perdeu o equilíbrio.

– Opa! Você ouviu isso? – perguntou.
– Se refere ao “filho da...”
– Não é isso, ouve só! – sinalizou com os olhos.

Era um ruído discreto, quase inaudível para as pessoas comuns. Parecia com um chiado estranho, semelhante a vitrola daqueles velhos LPs, mas na realidade era uma risada animalesca, meio rouca e canina.

– Stress! Só podia ter ele envolvido nisso! – o cavalheiro mais jovem matou a charada.
Seu colega apenas concordou afirmativamente com a cabeça.

Tão ocupado na tarefa, o rapaz nem percebeu a chegada daquela estranha criatura, uma mistura de cachorro vira-latas com diabo da Tasmânia. Apareceu daquele jeito dele, trombando em tudo e fazendo a maior baderna.

– Bichinho encrenqueiro...
– Muito mais do que isso, o Stress é um verdadeiro cachorro louco.
– E o que ele está fazendo aqui, quem o trouxe para a casa desse sujeito?
– Quem o trouxe? – o mais velho repetiu a pergunta. – Ele mesmo, ora bolas!
– Quer dizer então que...
– Isso mesmo, esse rapaz quem trouxe esse bicho para cá e agora terá que aturá-lo durante sua estadia.

Enquanto as explicações psicosociais eram dadas, a criatura continuava na fanfarrice de sempre. Derrubanco coisas, destruindo outras e barulho, muito barulho. Sorte do sujeito que não podia perceber essas coisas, consegue apenas sentir o que o Stress gosta de aprontar. Mas... é, pensando bem, não era tanta sorte assim...

– Onde é que pode estar aquela... porcaria! – o rapaz praguejava.
– Então foi o Stress quem deu um sumiço no equilíbrio do rapaz!
– Isso mesmo – concordou o mais velho. – O stress gosta de pregar peças.
– Mas onde então ele pode ter escondido isso?
– Onde ele pôs? Agora isso é o que menos importa – explicou. – Mesmo que achássemos o equilíbrio do sujeito, Stress daria um jeito de dar um sumiço nele. Por outro lado, tirando Stress de cena, o rapaz encontraria o seu equilíbrio naturalmente.

– Naturalmente?
– Sim, naturalmente.
– Então basta a gente... – disse se levantando.
– Opa, opa, opa... “a gente” nada – impediu o mais velho. – Isso daí é só com ele.
– Só com ele? Como assim, olhe só o que o Stess está fazendo – apontou para bicho mastigando a autoestima do garoto.

– Calma... daqui a pouco o rapaz espanta ele. Não vai ser nem a primeira e nem a última vez que o Stress aparece. Conviver com ele é um aprendizado importante para os humanos... – falou em tom conclusivo.
– Sendo assim, não precisamos atuar diretamente nesses casos, certo?

O cavalheiro mais velho apenas concordou vendo os progressos do colega. A essa altura já caminhavam em outro plano para outros afazeres.

– Só mais uma coisa – disse o jovem. – Esse tal equilíbrio é como o quê? Tipo uma jóia comum, como algo, assim, que se prende ao pescoço?
– Mais ou menos... não exatamente no pescoço, na verdade fica logo acima dele...

2 comentários:

Amanda Beatriz disse...

adorei seus textos! são mto engraçados! visitarei aqui com mais frequencia!
beijos!

André Melo disse...

Que legal, que legal!! Alguém leu meu textinhos!! Viva, viva!!! :)

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